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Editora: 12min
Na noite de sexta-feira, 14 de agosto, a Petrobras comunicou ter identificado hidrocarbonetos — o termo técnico que abrange tanto petróleo quanto gás natural — no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, sob uma lâmina d'água de 2.886 metros. A detecção veio de perfis elétricos e de amostras de rocha retiradas durante a perfuração. O comunicado não dizia se era óleo ou gás.
Na segunda-feira, 17, a presidente da estatal, Magda Chambriard, resolveu a dúvida exibindo um frasco com uma amostra: "Tem petróleo, não sabemos o quanto. Estamos extremamente otimistas."
A parte final da frase é a que costuma sumir das manchetes. A perfuração não terminou: faltam mil metros, e a companhia estima de 15 a 20 dias para concluir o poço. Só depois disso começa a etapa de delimitar a descoberta, ou seja, calcular quanto óleo existe de fato ali e se dá para tirá-lo com retorno econômico. A própria Chambriard fez questão de separar as duas coisas: "O anúncio de descoberta é diferente de uma descoberta comercial. Ainda temos uma sequência de estudos para saber sobre a produção de petróleo."
O que já se sabe é o custo. A operação consome cerca de US$ 1 milhão por dia e acumula aproximadamente US$ 300 milhões investidos até agora, segundo Clarice Coppetti, diretora de assuntos corporativos da empresa. Desse total, R$ 150 milhões foram para o complexo de defesa ambiental e proteção à fauna.
Lula visitou o navio-sonda na manhã de segunda e discursou em seguida em Oiapoque, no extremo norte do Amapá, vestindo o macacão laranja dos petroleiros. Chamou o achado de "passaporte para o futuro desse país" e disse que sentiu a mesma emoção de quando soube da descoberta do pré-sal. Ergueu o frasco de óleo e brincou que o guardaria no cofre.
Atrás dele, um painel exibia uma foto da visita à sonda: o presidente com as duas mãos sujas de óleo cru — o mesmo gesto que ele fez em 2008, ao anunciar as reservas do pré-sal no Sudeste. Segundo a AP, na época Lula estava no auge da popularidade; hoje as pesquisas mostram aprovação e reprovação em patamares parecidos, perto da metade dos brasileiros de cada lado.
O contexto do calendário é explícito. Lula discursou em Oiapoque um dia depois de abrir sua campanha à reeleição no Estádio Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Ele disputa em outubro um quarto mandato, tendo como adversário o senador Flávio Bolsonaro. Para Breno Rodrigues de Messias Leite, cientista político da Universidade Federal do Amazonas ouvido pela AP, a viagem manda um recado a eleitores do Norte, onde o presidente enfrenta críticas: "Lula quer ser reeleito, e quer que os estados da região Norte, especialmente o Amapá, tenham um eleitorado favorável a ele."
O Valor registra que a divulgação também coincidiu com uma semana de reaproximação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, senador pelo Amapá, presente ao evento — e ocorreu dias depois de o governo publicar decretos regulamentando mercados de transição energética, como hidrogênio verde e captura de carbono.
A urgência da empresa não depende da eleição. Hoje, cerca de 80% do petróleo produzido pela Petrobras vem do pré-sal, e Chambriard trabalha com um pico de produção dessas áreas entre 2034 e 2035. Depois disso, sem novas reservas, o Brasil corre o risco de perder posição entre os maiores produtores do mundo — atualmente é o sétimo, segundo a executiva.
É esse buraco que a Margem Equatorial, a faixa marítima que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte, deveria preencher. O plano de negócios da companhia para 2026 a 2030 prevê US$ 2,5 bilhões de investimento na região e a perfuração de 15 novos poços até 2030. A estatal detém 32 blocos na área. O bloco FZA-M-59, onde está o Morpho, foi arrematado em leilão da ANP em 2013.
"Esquenta toda a área", disse Chambriard ao O Globo sobre o resultado. "E nos anima na direção de uma nova província." Sylvia Anjos, diretora de Exploração e Produção, afirmou que o dado obtido já permite definir onde ficarão os próximos três poços do bloco.
Só que esses três poços ainda não têm licença. Em nota, o Ibama esclareceu que o licenciamento do bloco FZA-M-59 prevê quatro poços: um principal, o Morpho, e três contingentes. A Licença de Operação concedida em outubro de 2025 cobre apenas o Morpho, porque faltavam informações específicas para avaliar os demais. O processo segue em análise: em 10 de agosto o órgão enviou parecer pedindo ações adicionais — aumento do número de embarcações e atendimento, no centro de fauna de Oiapoque, a peixes-boi em recuperação no Norte do país — e a Petrobras protocolou as informações complementares em 14 de agosto, o mesmo dia do anúncio.
Chambriard afirmou não haver previsão para a concessão. "Mas vai dar. Não vejo razão para negar a licença."
O histórico explica por que o órgão ambiental não é detalhe burocrático. A discussão sobre licenciar a região começou no Ibama em 2014. Em maio de 2023, o instituto negou a licença, apontando problemas de segurança da operação e de capacidade de resposta a um eventual vazamento em área sensível. A Petrobras recorreu e apresentou uma estrutura de emergência maior, incluindo o centro de atendimento a animais em Oiapoque. Em setembro de 2025 o Ibama aprovou a avaliação pré-operacional, um exercício de resposta a emergências, e em outubro veio a autorização. A perfuração começou em 20 de outubro de 2025.
A resistência não acabou com a licença. Grupos ambientais e indígenas processaram o governo e a Petrobras para interromper a exploração, argumentando que o licenciamento não consultou adequadamente comunidades tradicionais, subestimou riscos de vazamento e avaliou mal os impactos climáticos, segundo a AP. O climatologista Carlos Nobre disse ao Jornal Nacional que "não há nenhuma justificativa para qualquer nova exploração de combustíveis fósseis", lembrando que 75% das emissões de gases de efeito estufa vêm da queima desses combustíveis. A Petrobras responde que nunca teve acidente em fase exploratória e que oferece na região o maior plano de emergência individual já montado para perfuração em águas profundas.
Nenhuma das estimativas disponíveis coloca petróleo do Amapá no mercado antes do fim da década. A própria Petrobras calcula que, se as descobertas se confirmarem e nada travar o caminho, a produção comercial poderia começar em cerca de seis ou sete anos, segundo a Veja. David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da ANP, é mais otimista e fala em "dentro de cinco anos, mais ou menos". Já Shigueo Watanabe Jr., especialista em energia da organização ClimaInfo, disse à AP que apenas determinar se a extração é comercialmente viável pode exigir pesquisas que levem até uma década.
O parâmetro que alimenta o entusiasmo vem de fora. A mesma estrutura geológica se estende pela costa norte da América do Sul, e na Guiana a ExxonMobil e seus sócios encontraram grandes reservas, transformando o país vizinho em um polo mundial de produção; Suriname e Guiana Francesa também registram descobertas. A Veja é explícita ao dizer que essa comparação serve como indicação de potencial, e não como estimativa do que há no Amapá. Estimativas preliminares citadas pela AP falam em até 10 bilhões de barris para a bacia, com valor potencial em torno de R$ 3,8 trilhões — número que a perfuração de um único poço não confirma nem desmente.
Nas próximas semanas há dois marcadores concretos que dizem mais do que qualquer discurso, e ambos têm prazo e endereço.
O primeiro é o fim da perfuração do Morpho. A Petrobras deu de 15 a 20 dias a partir de 17 de agosto para concluir os mil metros que faltavam, e Chambriard disse ao O Globo que os trabalhos devem terminar entre o fim de agosto e o começo de setembro. É desse resultado que sai a primeira noção de tamanho do reservatório. Enquanto ele não vier, qualquer volume citado é projeção de bacia, não medição de poço.
O segundo é a decisão do Ibama sobre os três poços contingentes do mesmo bloco. O processo está parado na análise das informações que a Petrobras protocolou em 14 de agosto, em resposta ao parecer de 10 de agosto. Se a licença sair, a campanha exploratória continua e a delimitação avança; se demorar, o cronograma de seis ou sete anos que a própria estatal projeta começa a escorregar antes mesmo de existir um campo. Vale observar também que a autorização do Morpho não vale para a Margem Equatorial inteira: cada poço passa por avaliação própria.
Para ler as notícias que vêm por aí, a distinção mais útil é a que a presidente da Petrobras fez em voz alta: descoberta e descoberta comercial não são a mesma coisa. Um texto que trate o achado do Amapá como reserva contabilizada está adiantando uma conclusão que a empresa ainda não tem — e a diferença entre as duas etapas, pelas estimativas de quem fala publicamente sobre o assunto, é medida em anos.
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